‘Fogo & Sangue’, de George R. R. Martin, conta história anterior a ‘Game of thrones’; leia trecho | Pop & Arte

'Fogo & Sangue', de George R. R. Martin, conta história anterior a 'Game of thrones'; leia trecho | Pop & Arte

O livro foca na história do reinado de séculos dos Targaryen, desde Aegon, criador do disputado Trono de Ferro, até a guerra civil que acabou com o seu domínio sobre Westeros.

George R. R. Martin fala sobre 'Fogo & Sangue'

George R. R. Martin fala sobre ‘Fogo & Sangue’

Leia, abaixo, trecho de um capítulo de “Fogo & Sangue”, de George R. R. Martin:

Porto Real cresceu em torno de Aegon e sua corte, expandindo-se sobre as três grandes colinas e seus arredores junto à foz da Torrente da Água Negra. A maior dessas colinas se tornara conhecida como Colina de Aegon, e não demorou até que as menores fossem chamadas de Colina de Visenya e Colina de Rhaenys, e seus nomes antigos caíram no esquecimento. O tosco forte de mota que Aegon havia erigido tão rápido não tinha espaço nem pompa suficientes para abrigar o rei e sua corte e começara a se ampliar antes mesmo do fim da Conquista. Do lado de fora da paliçada, foram construídas uma nova fortaleza, de quinze metros de altura e toda de madeira, com uma galeria cavernosa no interior, e uma cozinha com paredes de pedra e telhado de ardósia para caso de incêndio. Apareceram estábulos e um celeiro. Erigiu-se uma nova torre de vigia, duas vezes maior que a mais antiga. Em pouco tempo, o Aegonforte já ameaçava extrapolar suas muralhas, então se ergueu uma nova paliçada, envolvendo uma área maior da colina e criando espaço suficiente para um alojamento, um arsenal, um septo e uma torre baixa.

Sob as colinas, cais e armazéns eram instalados ao longo das margens do rio, e embarcações mercantes de Vilavelha e das Cidades Livres já apareciam amarradas ao lado dos dracares dos Velaryon e dos Celtigar, onde no passado só se viam alguns barcos de pesca. Grande parte do comércio que passava por Lagoa da Donzela e Valdocaso agora vinha a Porto Real. Um mercado de peixe emergiu junto ao rio, e um de tecido entre as colinas. Apareceu uma aduana. Um septo modesto surgiu na Água Negra, no casco de uma coca velha, substituído por outro mais robusto, de pau a pique, na margem. Depois, foi construído um segundo septo, duas vezes maior e três vezes mais grandioso, no topo da Colina de Visenya, financiado pelo alto septão. Lojas e casas se disseminaram como cogumelos após uma chuva. Homens abastados erguiam solares murados nas encostas, enquanto os pobres se aglomeravam em choças esquálidas de palha e barro nos espaços mais baixos intermediários.

Ninguém planejou Porto Real. Ela simplesmente cresceu… mas cresceu rápido. Na primeira coroação de Aegon, o lugar ainda era um vilarejo aninhado sob um castelo de mota. Na segunda, já era uma pequena e próspera cidade com milhares de almas. Em 10 DC, era uma verdadeira metrópole, quase tão grande quanto Vila Gaivota ou Porto Branco. Em 25 DC, ela superara ambas e se tornara a terceira cidade mais populosa do reino, perdendo apenas para Lannisporto e Vilavelha.

No entanto, ao contrário de suas rivais, Porto Real não tinha muralhas. Não era preciso, segundo gostavam de dizer alguns de seus residentes; nenhum inimigo jamais se atreveria a atacar a cidade enquanto ela fosse defendida pelos Targaryen e seus dragões. O próprio rei talvez tenha partilhado dessa opinião inicialmente, mas a morte de sua irmã Rhaenys e do dragão Meraxes em 10 DC e os atentados cometidos contra ele próprio certamente o fizeram reconsiderar…

E, no ano 19 Depois da Conquista, chegaram a Westeros notícias de uma ousada incursão nas Ilhas do Verão, onde uma frota pirata saqueara Vila das Árvores Altas, roubando uma fortuna e levando embora mil mulheres e crianças para serem vendidas como escravas. Os relatos causaram grande preocupação ao rei, que percebeu que Porto Real também estaria vulnerável a qualquer inimigo astuto o bastante para avançar sobre a cidade enquanto ele e Visenya estivessem ausentes. Em vista disso, Sua Graça deu ordem para que fosse construído um complexo de muralhas em torno de Porto Real, tão altas e fortes quanto as que protegiam Vilavelha e Lannisporto. Sua construção foi encarregada ao grande meistre Gawen e a sor Osmund Strong, a Mão do Rei. Para honrar os Sete, Aegon decretou que a cidade teria sete portões, cada um defendido por uma imensa guarita e por torres. As obras começaram no ano seguinte e se estenderam até 26 DC.

Sor Osmund era o quarto a assumir o posto de Mão do Rei. O primeiro tinha sido lorde Orys Baratheon, o meio-irmão bastardo do rei e companheiro de juventude, mas lorde Orys havia sido capturado durante a Guerra Dornesa e sofrera a perda da mão da espada. Quando o resgate foi pago e o senhor voltou, ele pediu que o rei o dispensasse.

— A Mão do Rei precisa ter mão — disse ele. — Não quero que os homens falem do Toco do Rei.

Aegon então convocou Edmyn Tully, Senhor de Correrrio, para assumir como Mão. Lorde Edmyn serviu entre 7 e 9 DC, mas, quando sua esposa morreu no parto, ele decidiu que seus filhos precisavam mais dele do que o reino e solicitou permissão para voltar às terras fluviais. Alton Celtigar, Senhor de Ilha da Garra, assumiu no lugar de Tully, servindo com competência como Mão até morrer de causas naturais em 17 DC, quando então o rei nomeou sor Osmund Strong.

O grande meistre Gawen era o terceiro a assumir o posto. Aegon Targaryen sempre mantivera um meistre em Pedra do Dragão, tal como haviam feito seu pai e, antes dele, o pai de seu pai. Todos os grandes senhores de Westeros, e muitos dos menores e dos cavaleiros com terras, empregavam meistres treinados na Cidadela de Vilavelha para servir como curandeiros, escribas e conselheiros, para criar e treinar os corvos que levavam suas mensagens (e escrever e ler essas mensagens aos senhores que não possuíam tal habilidade), ajudar seus intendentes com as contas da residência e lecionar aos seus filhos. Durante as Guerras da Conquista, Aegon e suas irmãs mantinham um meistre a serviço de cada um, e, depois, o rei às vezes empregava até meia dúzia para lidar com todas as questões que lhe eram apresentadas.

Mas os homens mais sábios e eruditos dos Sete Reinos eram os arquimeistres da Cidadela, cada um deles considerado a autoridade suprema em uma das grandes disciplinas. Em 5 DC, o rei Aegon, avaliando que o reino poderia se beneficiar de tamanha sapiência, solicitou que o Conclave lhe enviasse um desses para atuar como conselheiro e assessor em todas as questões relativas ao governo do reino. E assim foi criado o posto de grande meistre, a pedido do rei Aegon.

O primeiro homem a servir nessa função foi o arquimeistre Ollidar, guardião das histórias, cujos anel, bastão e máscara eram de bronze. Embora dotado de excepcional erudição, Ollidar também era excepcionalmente velho e deixou este mundo menos de um ano após assumir o mantelete de grande meistre. Para seu lugar, o Conclave escolheu o arquimeistre Lyonce, cujos anel, bastão e máscara eram de ouro amarelo. Ele se mostrou mais robusto que seu antecessor, servindo ao reino até 12 DC, quando escorregou na lama, fraturou a bacia e morreu pouco tempo depois, quando então o grande meistre Gawen foi promovido.

A instituição do pequeno conselho do rei só se desenvolveu plenamente no reinado do rei Jaehaerys, o Conciliador, mas isso não significa que Aegon i tenha governado sem o benefício de conselheiros. Sabe-se que ele se consultava frequentemente com seus diversos grandes meistres, e também com seus meistres pessoais. Em assuntos relativos a impostos, dívidas e receitas, ele buscava o conselho de seus mestres da moeda. Embora mantivesse um septão em Porto Real e outro em Pedra do Dragão, era mais comum que o rei escrevesse ao alto septão de Vilavelha para tratar de questões religiosas e sempre tratava de visitar o Septo Estrelado durante sua turnê anual. Mais do que com todos esses, o rei Aegon contava com a Mão do Rei e, claro, com suas irmãs, as rainhas Rhaenys e Visenya.

A rainha Rhaenys era uma grande patrona dos bardos e cantores dos Sete Reinos, cobrindo de ouro e presentes a todos que a agradavam. Embora a rainha Visenya considerasse a irmã frívola, havia nisso sabedoria que ia além de um simples amor pela música. Pois os cantores do reino, ansiosos para conquistar as graças da rainha, compunham muitas melodias para louvar a Casa Targaryen e o rei Aegon, e eles cantavam essas melodias em toda fortaleza, todo castelo e vilarejo entre a Marca de Dorne e a Muralha. E, assim, a Conquista se tornou gloriosa para o povo simples, enquanto Aegon, o Dragão, foi transformado em um rei heroico.

A rainha Rhaenys também nutria grande interesse pelo povo comum, e um amor especial por mulheres e crianças. Uma vez, quando ela estava recebendo a corte no Aegonforte, trouxeram-lhe um homem que havia espancado a própria esposa até a morte. Os irmãos da vítima queriam que ele fosse castigado, mas o marido defendeu que suas ações foram legítimas, pois ele encontrara a esposa na cama com outro homem. O direito de um marido de castigar uma esposa infiel era bem estabelecido em todos os Sete Reinos (exceto Dorne). O homem acrescentou, ainda, que o bastão que ele usara para espancar a mulher não era mais grosso que seu próprio polegar, e até apresentou o objeto como prova. No entanto, quando a rainha lhe perguntou quantos golpes ele dera, o marido não soube responder, mas os irmãos da mulher morta insistiram que haviam sido cem golpes.

A rainha Rhaenys se consultou com seus meistres e septões e, por fim, declarou sua decisão. O adultério de uma esposa era uma ofensa contra os Sete, que haviam criado as mulheres para serem fiéis e obedientes a seus maridos, e, portanto, ela devia ser punida. Contudo, como deus tem apenas sete faces, o castigo deveria consistir em somente seis golpes (pois o sétimo seria para o Estranho, e o Estranho é a face da morte). Assim, os primeiros seis golpes que o homem dera haviam sido legítimos… mas os demais noventa e quatro foram uma ofensa contra deuses e homens e precisavam ser punidos na mesma medida. A partir daquele dia, a “regra de seis” se tornou parte da lei. (O marido foi levado até a base da Colina de Rhaenys, onde os irmãos da mulher morta lhe desferiram noventa e quatro golpes com bastões de tamanho determinado pela lei.)

A rainha Visenya não partilhava do amor que sua irmã tinha por música e canto. No entanto, também não era desprovida de humor, e por muitos anos manteve seu próprio bobo, um corcunda hirsuto chamado lorde Cara de Macaco, cujas estripulias muito a divertiam. Quando ele morreu engasgado com um caroço de pêssego, a rainha adquiriu um símio e o vestiu com as roupas de lorde Cara de Macaco.

— O novo é mais esperto — dizia ela.

Contudo, havia um caráter sombrio em Visenya Targaryen. Para a maior parte do mundo, ela apresentava o rosto sério de uma guerreira, rigorosa e inclemente. Seus admiradores diziam que até mesmo sua beleza era afiada. A mais velha das três cabeças do dragão, Visenya viria a viver mais que os irmãos, e corriam boatos de que, em seus últimos anos, quando já não conseguia mais brandir uma espada, ela se dedicou às artes obscuras, misturando venenos e invocando feitiços malignos. Há até quem sugira que ela possa ter sido fratricida e regicida, embora jamais tenha sido apresentada qualquer prova para embasar tais calúnias.

Se fosse verdade, seria uma ironia cruel, pois, na juventude, ninguém se empenhou mais que ela para proteger o rei. Em duas ocasiões, Visenya brandiu Irmã Sombria em defesa de Aegon quando ele foi atacado por assassinos dorneses. Alternando-se entre desconfiança e ferocidade, ela não confiava em ninguém além do irmão. Durante a Guerra Dornesa, ela usava uma cota de malha noite e dia, inclusive sob seus trajes de gala, e instou o rei a fazer o mesmo. Como Aegon se recusou, Visenya ficou furiosa.

— Até mesmo com Fogonegro na mão, você é apenas um homem — disse ela. — E eu não posso estar sempre por perto.

Quando o rei destacou que estava cercado de guardas, Visenya sacou Irmã Sombria e fez um corte na bochecha dele, tão rápido que os guardas não tiveram tempo de reagir.

— Seus guardas são lentos e preguiçosos — avisou ela. — Eu poderia ter matado você com a mesma facilidade com que o cortei. Você precisa de mais proteção.

O rei Aegon, sangrando, foi obrigado a concordar.

Muitos reis tinham campeões para defendê-los. Aegon era o senhor dos Sete Reinos; portanto, a rainha Visenya decidiu que ele devia ter sete campeões. E assim se constituiu a Guarda Real; uma irmandade de sete cavaleiros, os melhores do reino, trajados com manto e armadura do branco mais puro, cujo único propósito era defender o rei, abrindo mão da própria vida se necessário. Para compor seus votos, Visenya se inspirou nos da Patrulha da Noite; tal como os corvos de mantos negros da Muralha,os Espadas Brancas serviam por toda a vida, abrindo mão de terras, títulos e bens materiais para levar uma vida de castidade e obediência, cuja única recompensa era a honra.

Foram tantos os cavaleiros que se ofereceram como candidatos para a Guarda Real que o rei Aegon considerou realizar um grande torneio para determinar quais eram os mais dignos. No entanto, Visenya não quis saber. Um cavaleiro da Guarda Real, disse ela, precisava de mais do que mera habilidade marcial. Ela não queria correr o risco de cercar o rei com homens de lealdade duvidosa, por melhor que fosse o desempenho deles em um combate corpo a corpo. Escolheria os cavaleiros pessoalmente.

Ela selecionou campeões jovens e velhos, altos e baixos, morenos e louros. Eles vieram de todos os cantos do reino. Alguns eram filhos caçulas, outros, herdeiros de casas ancestrais que abriram mão da herança para servir ao rei. Um era um cavaleiro andante, outro, um bastardo. Todos eram ágeis, fortes, observadores, habilidosos com espada e escudo, e dedicados ao rei.

Estes são os nomes dos Sete de Aegon, tal como foram escritos no Livro Branco da Guarda Real: sor Richard Roote; sor Addison Hill, Bastardo de Campodemilho; sor Gregor Goode; sor Griffith Goode, seu irmão; sor Humfrey, o Saltimbanco; sor Robin Darklyn, conhecido como Tordoscuro; e sor Corlys Velaryon, senhor comandante. A história confirmou que Visenya escolhera bem. Dois dos sete originais morreriam para proteger o rei, e todos serviriam bravamente até o fim da vida. Muitos homens valentes seguiram seus passos desde então, registrando seus nomes no Livro Branco e, portanto, vestindo o manto branco. A Guarda Real é até hoje sinônimo de honra.

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