Qual é a sua loucura?

Qual é a sua loucura?

Autoria: Rita Pisano

No Currículo Diversificado cineclube.arte do Ensino Médio do Santa Maria assistimos a alguns filmes selecionados por mim, professora da turma, e na sequência conversamos sobre os aspectos estéticos, filosóficos e sensoriais que o filme possa sugerir. Depois dessa primeira troca, cada estudante é provocado a criar um trabalho artístico a partir dessa inspiração e também de outras referências teóricas e/ou estéticas que podem surgir da conversa em grupo.

Um dos filmes trabalhados é “O Bicho de sete Cabeças”, filme brasileiro de 2001, dirigido por Laís Bodansky. O filme conta a história verídica de um garoto que é internado num hospício pela família por ser usuário de maconha, deflagrando um esquema manicomial perverso existente até então na sociedade brasileira.

Seguido ao filme, após a primeira troca de sensações e conversa com a turma, apresento um pequeno documentário sobre um manicômio em Barbacena/MG e, a partir dele, algumas informações são reveladas sobre a realidade manicomial brasileira até 2011. Dentre as informações impactantes, deflagramos o sistema de desumanização brutal realizado nesses centros de internação e sempre chama a atenção dos alunos o dado alarmante de que durante muitos anos a porcentagem de internos sem diagnóstico de doenças mentais era muito grande, cerca de 70%. Muitos dos internados eram pessoas que de alguma forma não se encaixavam na realidade social esperada, como meninas que engravidavam antes do casamento, militantes políticos ou homossexuais. É apresentado também o dado que atualmente os centros de reabilitação e cuidados dos doentes mentais acontece de forma diferente no Brasil, embora ainda haja um movimento em prol da volta dos grandes hospícios.

Em cada turma, a discussão envereda para um caminho diferente. Algumas vezes falamos sobre os distúrbios que têm assolados os adolescentes, outras vezes sobre drogas lícitas e ilícitas (tema transversal do filme), ora sobre nossa adaptação na sociedade. Pensando então na quantidade de pessoas que foram internadas no Brasil sem diagnóstico, os estudantes são convidados a pensar em Qual é a sua loucura? O que os inquieta? O que os diferencia ou mobiliza? O que os tira do padrão da normalidade?

A partir dessa provocação, cada um deve criar um móbile para responder simbólica e artisticamente a essas perguntas sobre si. A criação deve partir dessas inquietações pessoais e de como cada estudante consegue transformar esse olhar interno num símbolo para ser compartilhado. Peço que nessa feitura o uso da palavra escrita seja um elemento da composição, à la Bispo do Rosário, referência apresentada ao grupo para compor o estudo sobre arte e loucura.

Pensar sobre si e encontrar uma forma concreta e simbólica de se representar pode ser um importante exercício e estabelecer um diálogo interno, um olhar aprofundado e um caminho possível para o contato consigo mesmo num momento da vida repleto de cobranças, transformações e intensidade. A experiência estética entra aqui como uma possibilidade que a escola pode propor, de estruturação de si e de exercício do olhar poético, expandido para a realidade. Nesse mundo em que a realidade é tão bélica e controversa, acredito que um bom caminho para transformação seja esse retorno para nós mesmos, não?

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